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Como fazer uma sondagem de escrita.

Como fazer uma sondagem de escrita.

Muitas pessoas me perguntam sobre a alfabetização, e ao mesmo tempo percebo que estas pessoas ficam com dúvidas em como iniciar e por onde começar esse processo.

Segundo Ferreiro (1996, p.24) “O desenvolvimento da alfabetização ocorre, sem dúvida, em um ambiente social. Mas as práticas sociais assim como as informações sociais, não são recebidas passivamente pelas crianças.”.

Hoje vamos bater um papo sobre como fazer uma sondagem para diagnosticar níveis de escrita e para saber também como seu aluno e/ou seu filho estão nesse processo.

O que seriam essas sondagens? Para iniciar toda atuação pedagógica, psicopedagógica precisamos entender de onde partir porque independente da idade, da série, da classe que essa criança se encontra, precisamos entender verdadeiramente onde ela está.

Quando falo de alfabetização, preciso saber como esta criança está pensando, traçar as estratégias para que ela possa estar sendo melhor conduzida. Quando me refiro a criança, me refiro evidentemente dentro de uma turma, de um espaço clínico ou até de um adulto, pois o ponto de partida é o mesmo.

É muito importante ter um momento de análise, e este é o que chamamos de sondagem diagnóstica. Precisamos entender como a pessoa está pensando a sua escrita, partir do princípio que, você não conhece a pessoa e você precisa entender onde ela está para assim traçar um caminho, planejar, saber quais as melhores estratégias ou até mesmo qual a metodologia utilizar nesse processo.

Listo abaixo alguns pontos fundamentais e importantes nesse processo:

O primeiro deles é o questionamento. Por que devemos fazer uma sondagem? Muito simples, sendo sondagem uma avaliação, uma análise de como a pessoa se encontra, a sondagem é necessária para traçar um caminho, com a intenção de avaliar. Quando falo em avaliar, não me refiro no fato de atribuir notas ou corrigir a produção de uma pessoa, e sim porque a partir da avaliação é possível dizer como o trabalho será desenvolvido.

Muitas vezes quando recebemos um aluno, uma turma, não sabemos se partimos do plano de curso que foi nos dado ou da realidade da criança, porém em algumas situações ignoramos esta realidade e partimos do princípio que aquela criança está naquele momento e precisa receber o conteúdo referente a etapa de ensino em que se encontra. Porém, o conteúdo da série deve esperar, primeiro é preciso saber como essa criança chegou até você e o que ela traz de bagagem. Sem dúvidas, essa criança chegou com alguma construção, e você precisa saber qual o melhor caminho para prosseguir com ela.

Eu mesma já recebi crianças na escola e no consultório que estavam em um nível diferente do esperado para a sua idade e tive que voltar todo o processo para fazer sentido àquilo que eu estaria trabalhando. E muitas vezes preciso falar para os pais o que é mais importante no momento.

Quando era professora da classe de alfabetização, recebi uma criança que estava matriculada para cursar o 3º ano do Ensino Fundamental. Ela foi submetida a uma avaliação, uma sondagem, para entender qual nível de escrita estava. Foi diagnosticado através da avaliação que ela não estava preparada para enfrentar o 3º ano, porque ainda precisava ser alfabetizada. Na época existia a possibilidade de um acordo entre a escola e a família para fazer o que era melhor para a criança. E juntos decidiram que o melhor para ela seria que cursasse a classe de alfabetização, a ter que seguir a série devido a sua idade. Essa criança foi colocada em minha turma e foi muito beneficiada com toda a estimulação que foi dada a ela. Hoje essa criança, que é um menino, cursa a Faculdade de Administração de Empresas, é um rapaz muito inteligente, porém naquele período da vida dele ele precisava ser entendido e resgatado. Se a sondagem diagnóstica não tivesse sido realizada talvez essa história não teria terminado assim.

Precisamos entender verdadeiramente qual é o momento e onde essa pessoa se encontra, para que todas as estratégias sejam traçadas assertivamente. Vamos esquecer um pouco aquela velha frase: “Eu tenho que cumprir o planejamento”, para pensarmos onde essa criança realmente está.

Para entender a lógica desse processo de construção, recorremos a Weisz (1988, p.73) quando ela afirma que:

 

A criança começa diferenciando o sistema de representação escrita do sistema de representação do desenho. Tenta várias abordagens globais (hipótese pré-silábica), numa busca consistente da lógica do sistema, até descobrir - o que implica uma mudança violenta de critérios - que a escrita não representa o objeto a que se refere e sim o desenho sonoro do seu nome. Neste momento costuma aparecer uma hipótese conceitual que atribui a cada letra escrita uma sílaba oral. Esta hipótese (hipótese silábica) gera inúmeros conflitos cognitivos, tanto com as informações que recebe do mundo, como com as hipóteses de quantidade e variedade mínima de caracteres construída pela criança.

 

Ferreiro acrescenta essas informações, afirmando que:

 Vão desestabilizando a hipótese silábica até que a criança tem coragem suficiente para se comprometer em seu novo processo de construção. O período silábico-alfabético marca a transição entre os esquemas prévios em vias de serem abandonados e os esquemas futuros em vias de serem construídos. Quando a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada como unidade, mas que ela é, por sua vez, reanalisável em elementos menores, ingressa no último passo da compreensão do sistema socialmente estabelecido. E, a partir daí, descobre novos problemas: pelo lado quantitativo, se não basta uma letra por sílaba, também não pode estabelecer nenhuma regularidade duplicando a quantidade de letras por sílaba (já que há sílabas que se escrevem com uma, duas, três ou mais letras); pelo lado qualitativo, enfrentará os problemas ortográficos (a identidade de som não garante a identidade de letras, nem a identidade de letras a de som). (FERREIRO, 1985, p.13).

 

Assim, a sondagem diagnóstica pode ser feita em qualquer etapa do ensino e para cumprir qualquer objetivo. Posso fazer uma sondagem para perceber se as crianças conhecem os números, as quatro operações, enfim, para qualquer objetivo. Antes de tudo, preciso entender que eu preciso avaliar e assim avaliar o momento em que esta criança se encontra.

A segunda questão que trago é: O que nos devemos observar nesta sondagem? Se estou fazendo uma sondagem de escrita, devo observar como esta criança representa a palavra que foi pedida para que ela escrevesse. Preciso que esta sondagem me traga respostas para que, depois quando a criança produzir essa escrita, eu, enquanto profissional, possa classificar onde ela está.

Em uma sondagem diagnóstica não há interferências, porque preciso que a criança produza livremente sobre determinado assunto que estou avaliando. Se estou avaliando a escrita e a criança pergunta como escreve determinada palavra, qual é a letra que ele deve colocar, e o professor dá o amparo, ele não está colaborando para que esta sondagem diagnóstica seja efetiva. Ela precisa expressar a realidade, precisa ser real.

O aluno precisa pensar, processar aquilo que o professor solicitou que ele escrevesse para que você possa entender verdadeiramente como ele pensa. Caso o aluno insista, deve-se dizer que ele precisa escrever do jeito que acha que seja a palavra. Cada criança vai expressar essa escrita de uma forma.

Muitas vezes a criança fica inibida de fazer uma sondagem porque ela está acostumada apenas a copiar, acostumada que o professor dê a ela uma referência, às vezes em murais ou até mesmo no próprio quadro, a errar, e tem crianças que enxergam este erro como algo punitivo, e por medo de errar acabam numa atividade de sondagem não fazendo como deveria, devido a situações que viveu e que acabam inibindo essa demonstração da escrita. Então, precisa-se ter muito cuidado durante a realização deste trabalho.

 Como devo fazer, na prática, uma sondagem diagnóstica? Primeiramente o ambiente deve ser acolhedor, a criança precisa sentir confiança na pessoa que está avaliando, é necessário ela sinta à vontade para realizar esta sondagem.

Certa vez, dei um curso de capacitação em uma prefeitura em Santa Catarina, e eles me trouxeram respostas relativas a uma sondagem diagnóstica que foi realizada. Eles criaram um clima super bacana, trabalharam com música com as crianças, contextualizaram a atividade em todas as turmas que foram fazer a sondagem. Em seguida, depois que o ambiente onde essas crianças estavam inseridas estava totalmente acolhedor, eles partiram para a próxima etapa.

Uma sondagem diagnóstica não precisa ter caráter avaliativo por mais que esteja interessado em saber, por mais que a intenção seja avaliar. Ele não pode ter um caráter avaliativo, porque quando se trata o ambiente como o de uma avaliação, a criança se bloqueia e não quer fazer mais nada, como deveria. E pode ser até que ela demonstre algo para você que não seja realidade daquilo que ela, verdadeiramente, está levando dentro dela.

As atividades devem ter um objetivo proposto, devem estar inseridas dentro de um contexto, de um planejamento, de uma atividade comemorativa, de um projeto pedagógico que a escola esteja trazendo de proposta, enfim você precisa criar um ambiente acolhedor e motivador e não um ambiente de terror para esta criança.

Muitas pessoas quando falam de avaliação acreditam que a maneira correta seja entregar uma folha para as crianças e pronto, cada um por si. Esse não é o ambiente que a criança precisa.

Se for fazer uma sondagem diagnóstica em uma turma numerosa é muito importante entender que, se você não tiver um controle na observação dessas crianças, pois muitas vezes as turmas são cheias, com 30 ou mais alunos, fica praticamente impossível realizar uma avaliação desse porte sozinho. Certamente chegará o momento que você pedirá para a criança escrever uma palavra e pode ter aquele espertinho que copia do coleguinha ao lado, e quando ele faz essa cópia do colega você fica sem saber se a produção dele foi real ou não. Então faz se necessário a presença de outra pessoa para dar esse auxílio ou então pode-se dividir a turma em dois grupos ou fazer em dois momentos e assim você vai criando a sua estratégia para realizar essa sondagem.

Realizo uma sondagem de modo muito simples, não existe mistério em se fazer uma sondagem, é algo muito efetivo. Vale ressaltar que a sondagem diagnóstica tem períodos para ser realizada. Sempre fiz de forma mensal, pois eu queria saber mês a mês como as crianças estavam evoluindo na produção escrita, então sempre escolhia uma data específica do mês e sempre nesse período eu tinha uma atividade de sondagem para realizar. A cada atividade diagnóstica que realizava, guardava comigo as folhas separadas de cada aluno e ao final do ano eu tinha toda demonstração desse apanhado de escrita de cada criança. E assim, através dessas avaliações dava para perceber nitidamente como a criança começou e como ela terminou o ano. Mostrar esse portfólio para os pais, para o coordenador, em uma reunião de final de ano é maravilhoso, pois mostra a evolução da criança ao longo dos meses.

Todo trabalho precisa de organização, então, se quero acompanhar isso preciso observar e avaliar desde o início até o fim. Quando observo essa sondagem consigo perceber a evolução da criança do início ao fim, um ótimo recurso para a apresentação desses dados em reuniões de pais é através de gráficos, com isso é possível perceber de maneira mais clara e objetiva como começaram e como elas terminaram.

Como eu começava a fazer uma sondagem diagnóstica quando estava em sala de aula? A princípio distribuía folhas de papel branco e pedia para as crianças colocarem na posição horizontal e dobrassem pontinha por pontinha onde tinham as marcações, ficando assim com quatro espaços. Porém, antes de chegar nisso eu selecionada dentro do contexto, com eles ou eu já trazia de casa quatro palavras e uma frase. Dependendo da idade eu só trabalhava as quatro palavras, por exemplo, se fosse uma sondagem realizada na pré-escola, já no primeiro ano, introduzia a escrita de uma frase.  Essas palavras que eu selecionava, ou que nós, junto com as crianças selecionávamos estavam sempre dentro de um contexto, todos escreviam as mesmas palavras de preferência que fossem do mesmo campo semântico. Se estou falando de páscoa, por exemplo, eu trabalhei nesse contexto, sensibilizei a turma e selecionei palavras dentro desse tema que devem ter preferencialmente quatro, três, duas ou uma sílaba, para que você verdadeiramente perceba como essas crianças estão pensando as palavras de acordo com o número de sílabas. Essa consciência será importante para o momento da avaliação.

Depois de selecionar as palavras e a frase, no caso de turmas de primeiro ano, eu pedia para a criança primeiramente fazer um desenho do que representa essa palavra e depois para que escreva a palavra referente a figura que ela desenhou. No verso da folha, ela escrevia a frase sobre determinado desenho que realizou. A escrita deve começar sempre da palavra de quatro sílabas, depois de três, duas e uma sílaba, caso não tenham palavras de acordo com essa quantidade de sílabas, dentro do contexto abordado, pode-se repetir, o importante é que você não selecione somente palavras de sílabas simples, é necessário que tenham palavras com sílabas complexas, exemplos: S no final de sílaba, M e N, LH, NH, encontros consonantais, a formação da sílaba não pode ser consoante + vogal somente, isso será importante para entender como a criança pensa essas dificuldades ortográficas.

Certa vez, orientei um pai por telefone que estava querendo saber como que filho estava. Na época o contexto era copa do mundo. Assim pedi a ele para escolher dentro desse contexto quatro palavras, ele escolheu BOLA, CAMPO, FUTEBOL e JOGADOR. Foi muito interessante, durante a escrita da palavra BOLA seu filho prontamente escreveu, sem dificuldades e questionamento. Quando o pai pediu para que escrevesse a palavra CAMPO, a criança se recusou e pediu para escrever outra palavra. Por que isso aconteceu? Porque ele estava confortável escrevendo a palavra que ele já sabia, quando o pai trouxe um dificultador, uma palavra que fugia daquilo que ele compreendia, ele queria fugir. Disse a ele que era normal acontecer isso, porém precisava que ele estimulasse o filho dizendo que ele conseguiria. Então ele escreveu as palavras desconhecidas diferente da forma com que ele escreveu BOLA, pois a palavra conhecida ele se sentiu seguro, pois já havia memorizado e as outras não apareceram da mesma forma, apareceram em um nível de escrita diferente daquilo que estávamos esperando.

Após selecionar as quatro palavras, as crianças desenham, escrevem o nome desses desenhos e após isso você irá recolher essas folhas, porém não irá corrigir como certo ou errado.

Em algumas situações a criança realiza as atividades de forma rápida, errada para passar para outra atividade. Quando isso acontece, é preciso primeiro baixar a ansiedade da criança, pois às vezes ela fica eufórica por não sabe o que vai acontecer depois. É muito importante que o professor fale o que irá acontecer depois, trazer a calma dizendo que ela só poderá passar para outra atividade quando finalizar a primeira. Falar sobre a importância da qualidade dessa execução e que, se ele errar vai precisar fazer de novo, criança nenhuma gosta de voltar para fazer novamente uma atividade. Por mais que você saiba que ela sabe, ela precisa nesse momento se concentrar e atentar para o momento e não ficar apressada para viver momento que ainda nem chegou.

Depois que as crianças escreveram as palavras nós precisamos analisar os resultados. E como é feita essa análise? Para analisar os resultados precisamos entender sobre os níveis de escrita propostos por Emília Ferreiro.

Em seus estudos sobre a Psicogênese da Língua escrita, Ferreiro (1985) relata como a criança se apropria dos conceitos e das habilidades de ler e escrever, revelando que a aquisição desses atos linguísticos segue um percurso semelhante àquele que a humanidade percorreu até chegar ao sistema alfabético, ou seja, a criança constrói gradualmente diferentes níveis e hipóteses sobre o sistema de escrita, a partir de uma lógica que vai da não compreensão da relação entre fala e escrita, passando pelo entendimento da fonetização, até construir a representação alfabética da escrita.

E quais são eles? Segundo Ferreiro (1995), esse período tem subníveis, com diferentes hipóteses e escritas e estas levam os nomes das hipóteses: pré-silábica, silábica, silábica-alfabética e alfabética.  Vou mostrar aqui pra vocês alguns exemplos: digamos que a primeira palavra da sondagem tenha sido BOLA, dentro do contexto brinquedo. Quando você pede para que a criança escreva a palavra BOLA e ela coloca letras do seu nome, do seu cotidiano, ela vai colocar na folha várias letras que não correspondem com a palavra BOLA, esta criança está no nível pré-silábico de escrita, pois representa a escrita de forma não convencional, ou seja, mistura números, letras, bolinhas, desenhos e risquinhos e diz para você que ali está escrito BOLA, ela não está compreendendo como essa escrita se processa. Ela está em um primeiro nível para a estimulação efetiva.

  

 Uma criança que escreve a palavra BOLA, por exemplo, utilizando as vogais (O A) ou com consoantes (B L) ela já está pensando sílaba por sílaba, quantidade de sílabas, pois a palavra bola tem dois pedacinhos, sendo assim ela colocará duas letras. Outra coisa que pode acontecer é a criança escrever bola com letras que não tem relação com a palavra, porém isso tem sentido devido ao número de sílabas. Peça para que a criança leia para você a palavra que escreveu, caso ela leia relacionando a letra com a sílaba, isso significa que ela sabe contar o número de sílabas, então ela está no nível de escrita silábico, porém sem valor sonoro, ou seja, sem fazer relação com o som da letra que contém nessas sílabas, mas já está pensando na sílaba, está percebendo que tudo que escreve tem relação com a fala, com a quantidade de sílabas. De acordo com estes exemplos, é possível perceber se a criança está no nível silábico com valor sonoro ou sem valor sonoro.

 

 O outro nível é quando a criança já começa a perceber o som dessas letras, e em determinado momento coloca uma sílaba completa da palavra e em outro ela omite. Um exemplo, você pede para que ela escreva a palavra BOLA, primeiro ela coloca a letra O, depois as letras L e A, e ela lê assim: BO e aponta para a letra O, LA e aponta para as letras L e A, ou seja, ela tem consciência da sílaba, mas como ela não tem ainda a capacidade de identificar sons, fonemas então ela percebe um e não percebe o outro, e fica oscilando.

 Quando a criança está nesse nível, não é porque ela esqueceu uma letra, é porque aquele som ainda não fez sentido para ela, assim ela escreverá somente aquelas letras que fazem sentido. Vale ressaltar que não tem erro nisso, é apenas um processo, por isso a importância de entender como se faz uma sondagem e os níveis de escrita.  A abordagem que vou dar para uma criança pré-silábica é diferente da abordagem de uma criança silábica, e para uma silábico-alfabética.

Em uma sala de aula encontramos todos os níveis de escrita, numa classe alfabetização, na pré-escola, cada criança está em um nível. Quando faço uma sondagem para identificar como a turma está, a partir disso já sei como trabalhar com cada grupo, não existe aquele pensamento de que estou nessa turma e tenho que fazer a mesma coisa pra todos, isso não existe mais. Você precisa entender que cada aluno é único e precisa ser atendido na sua individualidade.

Percebo nas assessorias de professores, que na organização de tudo isso existe uma angústia dos professores em querer uniformizar, tornar igual todo o processo de desenvolvimento dessas crianças, mas não é assim que funciona, é preciso ter propostas que possam atender cada grupo, por isso a grande necessidade de se fazer uma sondagem e de se conhecer sobre o assunto.

No terceiro exemplo que eu trouxe, onde uma criança escreve uma sílaba completa e a outra incompleta não tem nada de errado com essa criança, ela está evoluindo na escrita e precisa de estímulos adequados para chegar ao nível alfabético. E qual é o nível alfabético? Não é o nível alfabetizado.  O nível alfabético é quando a criança entende que todos os sons daquela sílaba precisam ser representados por uma letra, seja ortograficamente falando ou não.

  

 Se a criança alfabética, não alfabetizada, escreve a palavra CACHORRO com a letra X ou com um R somente, você pode pensar que ela tenha escrito errado, mas não, ela está escrevendo o som que ela produziu, percebeu.  No alfabeto, por exemplo, tem o CH? Não. E qual a letra que representa o som /x/? A letra X, mas na palavra CACHORRO ortograficamente falando é o CH e não o X. Então uma criança que escreve CACHORRO, numa sondagem, com X eu preciso trabalhar a ortografia com ela e daí eu tiro ela do nível alfabético e a levo para o grupo que está construindo essa alfabetização. Mas antes disso você precisa fazer com que essa criança evolua de fase a fase.

Como devo levar a criança do nível pré-silábico para o nível alfabético? Primeiramente entendendo o sistema de escrita alfabética (SEA).

Quando faço uma sondagem e entendo que eu tenho uma determinada quantidade de alunos em um nível e outra em outro nível, é preciso sentar e pensar em estratégias. E o que essa criança precisa entender logo de início?  Ela precisa entender que a representação escrita tem pauta sonora. Muitos cientistas já comprovaram que nosso cérebro aprende melhor pela pauta sonora, fônica. Preciso assim, entender esses sons que produzo e que cada som que emito dentro de uma palavra é representado por uma letra, e cada letra que eu vejo eu traduzo em um som quando falo. A codificação que é a escrita e a decodificação que é a leitura são processos que dependem da compreensão do som, do que aquela letra representa para ler ou para escrever.

É importante que você professor, pai perceba e estude sobre essa estratégia metodológica. Eu trabalho com uma metodologia multissensorial que além de reunir o som dessas letras reúne também sensações e percepções, então eu sinto o que esse som produz, eu vejo esse som articulando, sempre que eu falo a letra A, minha boca abre, quando falo BOLA, AMOR, ARMÁRIO sempre que eu articulo, percebo a minha boca fazendo movimentos para a produção de um som e isso eu vejo, e se eu vejo a minha boca articulando eu faço com que essa representação seja cada vez mais fácil de ser realizada.

Através desse processo, a alfabetização deixa de ser um bicho de sete cabeças, porque muitas vezes nós cobramos memorização das crianças como: TA, TE, TI, TO, TU, ou a palavra inteira e a criança precisa entender essa palavra inteira para escrever, só que nosso cérebro não processa assim. Muitas vezes em uma sondagem você perceberá que tem crianças que sabem escrever porque memorizou, mas, se você confrontar outra palavra que não seja do repertório dela, ela acaba não alcançando, assim concluímos que ela não está alfabetizada. Dessa forma, como está presente em um trecho do PCN de Língua Portuguesa podemos concluir que:

A alfabetização não é um processo baseado em perceber e memorizar e, para aprender a ler e a escrever, o aluno precisa construir um conhecimento de natureza conceitual: ele precisa compreender não só o que a escrita representa, mas também da que forma ela representa graficamente a linguagem. (BRASIL, 1997, p. 20).

Comecei a fazer uma intervenção com uma criança que foi aprovada para o segundo ano e o seu maior desejo era ler. Quando realizei a sondagem diagnóstica, percebi que ela havia memorizado algumas palavras, mas quando eu provoquei outras palavras que saíam um pouco daquela matriz que ela trouxe, ela apresentou uma escrita totalmente pré-silábica. Percebi então que era preciso alfabetizar essa criança. E hoje ela já sai de casa lendo as placas, e isso só acontece porque ela já entendeu a representação, já entendeu que toda letra produz um som e tem uma articulação.

Precisamos estruturar o trabalho para conduzir essa criança nessa percepção até o nível alfabético. Quando ela chegar no nível alfabético aí sim vou me preocupar em alfabetizar essa criança. Para eu cobrar da criança uma escrita ortográfica ela primeiro precisa compreender o sistema de escrita alfabética e como esse sistema se processa.

O nível pré-silábico aparece naturalmente com dois e três anos de idade, porque a criança não está preparada neurologicamente para compreender a relação letra e som, ela precisa ter uma área mais madura do cérebro para isso. Já foi pesquisado também que a partir dos quatro anos de idade essa criança já começa a compreender a parte fonológica.

Quando dei aula na pré-escola, tinham crianças de quatro anos que avançaram consideravelmente com apenas a estimulação da consciência fonológica e eu não estava alfabetizando-as ou cobrando delas a escrita, elas estavam apenas sendo estimuladas, o único momento em que elas escreviam era na realização das sondagens, e representavam a escrita de modo silábico, ou seja, crianças com quatro anos já podem alcançar o nível silábico.

Com cinco anos a criança já alcança e tem maturidade suficiente para entender a formação de uma sílaba e fazer a relação letra e som. Se ela já entendeu o sistema de escrita alfabético, a partir dos seis anos de idade essa criança já tem condições suficientes de iniciar o processo de alfabetização.

Quando uma criança na pré-escola está apenas recebendo estímulos fonológicos, está entendendo o som que está ouvindo, conseguindo fazer essa relação com a letra e isso faz sentido para ela de uma forma lúdica, ao chegar no primeiro ano ela já estará compreendendo o sistema de escrita alfabética e será alfabetizada muito mais rápido. Muitas crianças chegam inclusive lendo porque já entenderam a decodificação, sabem que aquela letra representa um som.

Segundo Ferreiro:

A alfabetização não é uma questão de sondar as letras, repetindo-se mais e mais as mesmas cadeias de letras numa página, ou aplicando testes de leitura para assegurar-se de que a alfabetização comece com todas as garantias de sucesso. Com esse entendimento, os professores começam a pensar de outra maneira e respondem de maneira diferente às respostas das crianças, às questões das crianças, às interações das crianças e às produções das crianças. Os professores passam a descobrir que as crianças são tão inteligentes, ativas e criativas no campo da escrita/leitura quanto na matemática. (FERREIRO, 1995, p. 33).

Quando se entende uma metodologia e como o cérebro processa isso,  é fácil fazer,  mas é preciso estudar e entender o processo. É inadmissível que crianças de sete, oito, nove ou dez anos não entendam o sistema de escrita alfabética. Essa criança passou por toda a educação infantil, foi para o ensino fundamental e ainda não sabe ler e escrever, ainda que com erros ortográficos? O conhecimento está disponível para todo mundo, mas o quanto verdadeiramente estamos dispostos a fazer uma sondagem, entender sobre o nível de cada criança, criar uma estratégia e chegar ao objetivo? Isso é selecionar ferramentas de trabalho para trabalhar e assim não fico angustiada porque sei onde estou e onde quero chegar. Preciso entender o meu estado atual dentro do meu trabalho, daquilo que me proponho fazer para alcançar o objetivo desejado e nesse caminho vou traçar as estratégias selecionando estímulos, fazendo o que é efetivo.

Uma dica importante é: evitem mostrar nome de letra para as crianças. Não estou dizendo que não é para mostrar, mas isso não é primordial. Nome de letra é importante, mas quando falamos, escrevemos e lemos não aparece o nome da letra. Quando escrevo BOLA eu não leio BE, O, ELE, A, não soletro, soletrar é falar o nome de letra por letra. Para eu saber escrever e ler uma palavra, tenho que entender o que essas letras e sons representam, associando o som e isso se torna concreto e efetivo, assim o nome da letra não aparecerá na leitura ou na escrita. Outra dica para os pais e professores, é que muitas vezes a criança pede para o adulto ensiná-la como escrever determinada palavra, por exemplo, BOLA. Daí a mãe ou o pai fala: BE, O, ELE, A. Será que esta criança escreveu bola ou apenas as letras soletradas? Precisamos pensar nisso, escrever bola é escrever com autonomia, percebendo os sons que cada letra representa e identificando as letras que representam esses sons, isso é fazer e alfabetizar com consciência.

Ao iniciar uma sondagem, anote a data de início, repita-a após um mês, e vá dando os estímulos corretos e percebendo como essas crianças estão avançando nessa escrita, selecione o melhor material, a melhor estratégia metodológica para que elas possam caminhar conscientemente sendo alfabetizadas.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa (1º e 2º ciclos do ensino fundamental). v. 3. Brasília: MEC, 1997.

FERREIRO, Emilia. Alfabetização em Processo. São Paulo: Cortez, 1996.

FERREIRO, Emilia. Com Todas as Letras. São Paulo: Cortez, 1999. 102p v.2.

FERREIRO, Emília. Desenvolvimento da Alfabetização: psicogênese. In: GOODMAN, Yetta M. (Org.). Como as Crianças Constroem a Leitura e a Escrita: perspectivas piagetianas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p.22-35.

FERREIRO, Emília; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985

 

WEISZ, Telma. Como se aprende a ler e a escrever ou prontidão um problema mal resolvido. In: SECRETARIA DE EDUCAÇÃO. COORDENADORIA DE ESTUDOS E NORMAS PEDAGÓGICAS. Ciclo Básico. São Paulo: SE/CENP, 1988.

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Sou Carla Silva, tenho mais de 20 anos de experiência na educação como professora alfabetizadora, atuando na pré-escola, coordenadora pedagógica, professora no ensino Fundamental I e II, palestrante, assessoria pedagógica de professores e escolas, e

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